Como escrever

Quero te fazer um convite a escrever por prazer, não por obrigação. Com interesse e empolgação, não com tédio e má vontade. Escrever bem, claro, é importante para seu TCP, mas a verdade é mais profunda. Bem mais profunda.

Você terá que escrever em muitos momentos da sua profissão:

  • vai conversar com clientes por WhatsApp;

  • vai conversar com colegas por e-mail;

  • vai escrever relatórios;

  • vai elaborar projetos de novos produtos;

  • e várias outras situações.

Além disso, muitos desses textos serão escritos junto com colegas e serão revisados pelo seu chefe. Nessas situações, você será mais respeitado se souber se expressar bem.

Portanto, não saber escrever bem vai diminuir suas oportunidades profissionais. Claro, você não precisa se apaixonar pela literatura e se tornar um escritor. O essencial é não cometer erros gramaticais básicos e conseguir apresentar as ideias de maneira clara.

Espero, então, que eu tenha te convencido que vale a pena aprender a escrever melhor. Vamos ao trabalho. Como fazer isso? Como vencer a dificuldade de colocar as ideias no papel? Sugiro o seguinte roteiro:

  1. escrever pelo menos cinco minutos por dia;

  2. usar a escrita livre para aquecer;

  3. escreva um pequeno texto sobre assunto, pode ser com escrita livre ou escrita normal;

  4. montar um esquema do texto do seu artigo, a estrutura;

  5. escrever rascunhos em primeira pessoa quando não estiver com vontade de escrever ou ainda não souber muito bem o que quer falar;

  6. criar metas fáceis.

Vamos entender melhor cada um desses pontos. Em primeiro lugar, a importância da regularidade e da prática. Aprender a escrever não é como aprender o nome de uma pessoa ou o preço de um produto. Escrever é uma habilidade, não um conjunto de informações. Por isso, é preciso praticar. Se não treinar sua escrita, é como se você ficasse apenas lendo sobre andar de bicicleta, sem nunca realmente montar em uma e pedalar.

É muito comum ter dificuldade de escrever, mesmo entre quem já escreveu muito e até mesmo entre quem gosta de escrever. Muitas vezes, a maior dificuldade é simplesmente não ter vontade de escrever, estar desanimado. Outro é achar que o que escreveu está ruim, errado, confuso, mal escrito.

Os dois motivos, claro, estão ligados. A gente fica sem vontade de escrever porque acha que vai ser sofrido e além disso esse sofrimento vai ser inútil porque o resultado será ruim. Aí a gente não treina, não melhora e aí não ganha confiança e ladeira abaixo em um ciclo de frustração, vergonha, tristeza e raiva. “Não sirvo para isso”, “que coisa mais chata”, “isso não serve para nada”, “nunca fui bom para escrever”, “achei que não teria mais que fazer redação”, “escrever é muito ultrapassado” e por aí vai.

O antídoto para quebrar esse ciclo é a escrita livre: escrever alguns minutos sobre qualquer coisa, apenas para você mesmo, sem mostrar para ninguém, sem se preocupar nada nada nada com a qualidade. Nem conexão, nem pontuação, nem acentos, letras faltando. Nada. Aqui vai um exemplo:

Hoje acordei um pouco mais tarde porque é sábado. Não tenho nenhuma obrigacao, adoro dias assim, longos, sem nada para fazer. Tomei café bem devgar, conversndo com a Patrícia. Depois voltei para a cama hehe Fiquei ouvindo musica mais ou menos meia hora. Depois já fui picar legumes pro almoço.

Meu exemplo ficou parecendo um drio, mas poderia ser sobre qualquer coisa. A ideia é apenas escrever o que vem à cabeça, sem se corrigir. Criar um texto e corrigir um texto exigem recursos diferentes do seu cérebro. Para criar é preciso fluxo, espontaneidade. Para corrigir é preciso analisar detalhes, ir e voltar, comparar. Se você ficar parando para se corrigir, perde o fluxo, a empolgação. Ficar procurando a palavra certa ou ficar pensando se o professor vai entender ou o orientador vai criticar engasga o pensamento. Por isso, é preciso separar completamente a criação da revisão do texto.

Esse tipo de exercício serve para aquecer, ativar certas partes do seu cérebro que não foram muito usadas nos últimos tempos. Serve para encontrar dentro de você o caminho até as palavras, limpar a cabeça, aprender a conectar, encadear ideias.

Uma vantagem dessa escrita livre é que você consegue escrever mesmo quando está sem vontade, sem inspiração. Afinal de contas, você não vai mostrar para ninguém e nem há nenhuma obrigação de ficar bom. O objetivo é apenas escrever qualquer coisa, sem esforço.

Porém, a mágica que isso vai fazer é mostrar que você consegue escrever, consegue colocar uma palavra depois da outra. E vão aparecer palavras e ideias que você nem sabia que tinha. Dessa maneira, você começa a substituir emoções ruins por boas. Apenas sentir que você consegue fazer alguma coisa já é importante. Mostra que você é capaz. Troca pensamentos ruins, limitadores, por pensamentos positivos, que te fazem ter mais confiança.

Isso está baseado em uma ideia que serve para muita coisa na vida. Começar fácil em tudo: exercícios, dieta, tocar um instrumento etc. Começando de maneira fácil uma atividade é mais provável que você vai tomar gosto, não vai desistir, porque você vai sofrer menos e ficar feliz com os progressos ao invés de frustrado com as limitações.

Por exemplo, se você quer começar a correr, não vai conseguir correr 5 km todos os dias. Então, quando estiver desanimado, apenas caminhe. Talvez dali a 10 minutos, tente correr 1 km. Caminhe mais 2, depois corra uns 500 m, depois complete os 5 km caminhando. No final, você não correu 5 km, mas pelo menos correu 1,5 e caminhou 3,5. Já é alguma coisa. Bem melhor do que desistir ou correr só por obrigação e começar a odiar corrida. Como diz o pessoal das academias, treino ruim é o que você não foi. Se você foi, já está valendo, é muito melhor do que nada, do que não ir.

A ideia de começar fácil também te faz perceber que em muitos casos você não precisava ter vontade para começar, que muitas vezes a vontade vem depois, não antes. Por isso, voltando ao nosso tema, use a escrita livre para escrever mesmo quando você estiver desanimado.

Então, essa é a escrita livre, sobre qualquer coisa, apenas para criar o hábito de escrever pelo menos 5 minutos por dia, para aquecer, ativar partes do cérebro que estavam desligadas, começar fácil e conseguir escrever mesmo sem ter vontade, aprendendo que a vontade muitas vezes vem depois. O próximo passo é começar a montar o texto que você precisa escrever, o artigo da disciplina, o TCP ou um email importante de trabalho.

Aqui a ideia também é começar fácil e ir devagar e sempre. Minha sugestão é que você comece com um pequeno texto sobre o assunto, dois ou três parágrafos, só para te ajudar a pensar. Pode escrever como escrita livre, é só para você mesmo, para identificar o que você já sabe sobre o assunto.

O passo seguinte é montar a estrutura do texto, um esquema indicando a ordem das coisas sobre as quais você vai falar. No artigo da nossa disciplina, já temos uma estrutura inicial: título, resumo, introdução, segunda seção, terceira seção e considerações finais. No resumo é preciso indicar o objetivo, mencionar que a metodologia é a revisão de literatura narrativa e listar os principais resultados. Na introdução, você deve repetir o objetivo, explicar porque o assunto é importante (a justificativa) e apresentar o roteiro do artigo (o conteúdo de cada seção). Sua liberdade está no conteúdo das seções 2 e 3. Você deve escolher o título de cada uma delas e planejar o conteúdo, lembrando que cada uma delas deve ter entre 2 e 4 páginas.

Imagine que seu artigo é sobre financiamentos de imóveis. Uma maneira de explicar seu tema seria usar a segunda seção para tratar da quantidade de financiamentos nos últimos anos para depois, na terceira seção, dar um panorama das taxas de juros praticadas atualmente. Conseguir pensar nessa divisão do tema já te ajuda a saber o que escrever em cada uma das seções. Na segunda seção, você pode anotar que vai ter falar se os financiamentos aumentaram ou diminuíram recentemente e também vai precisar mencionar quais são as principais regras desse tipo de empréstimo e se elas sofreram alguma modificação. Pronto, apenas anotando isso, você já afasta alguns fantasmas. Já sabe sobre o que vai precisar falar. Agora é ir atrás dos assuntos.

Então, repetindo. Monte um esquema do seu texto: quais as principais divisões e o que você tem que falar em cada uma delas. Isso te dá um norte. Claro, você pode mudar depois. É comum a gente descobrir novas coisas que precisam ser ditas ou que algo em que a gente tinha pensado não é nada interessante. Ora bolas, uma pesquisa é justamente isso, aprender sobre um assunto, mudar o que você pensava.

O próximo passo. Dentro de cada uma das divisões e subdivisões vá escrevendo rascunhos, pode até ser em primeira pessoa mesmo, por exemplo:

Aqui na introdução preciso explicar que os financiamentos são a única maneira que muitas pessoas têm para conseguir comprar a casa própria, mas muitas delas não entendem como eles funcionam porque eles são muito complicados e isso pode fazer com que elas façam escolhas ruins e depois percam a casa porque não conseguiram pagar.

Essas frases estão muito ruins, mas não tem problema, o objetivo agora não é ficar bom, mas apenas registrar as ideias e ir recheando a estrutura. É mais fácil começar escrevendo coisas assim do que tentar já escrever bem na primeira tentativa. Escreva as ideias da maneira que estão na sua cabeça, sem se preocupar com a qualidade. Isso te ajuda a organizar o texto e diminuir a angústia. Em algum dia, você volta àquele trecho e reescreve de maneira adequada.

A ideia é primeiro fazer de qualquer jeito, depois melhorar. Como diz o ditado, não deixe o ótimo ser inimigo do bom. Quer dizer, ficar esperando para conseguir algo excelente na primeira tentativa vai te atrapalhar a fazer o que é suficiente. Um trabalho ruim é muito melhor do que nenhum trabalho. Uma estratégia muito menos sofrida é primeiro fazer algo simples que cumpra o objetivo e depois ir melhorando, com a tranquilidade de que a missão já foi cumprida.

Então, reforçando: o rascunho é uma forma de escrita livre, mas agora sobre o assunto mesmo do seu texto. Serve para registrar ideias. Para quando sei o que quero dizer, mas não consigo colocar no papel. Comece pelo que você sabe, acha mais fácil, tem mais clareza.

Esse rascunho pode ser no meio do texto quase pronto. Muitos alunos já fazem isso. É comum me pedirem para olhar algum texto que ainda não está pronto e me avisarem que não é para ler o que está em vermelho porque é uma parte que ainda não está pronta. Você pode falar coisas como "falta conectar essas duas partes", "um jeito de explicar essas coisas seria mostrar que a elas são usadas por empresas diferentes" etc.

Um aspecto muito bonito dessa maneira de escrever é que ele permite o avanço pela aproximação. Você vai construindo o texto em pequenos pedaços, vai mexendo no assunto, como se estivesse tateando no escuro, até achar o fio da meada. Aí, aos poucos, quando as coisas vão se encaixando, uma coisa vai levando a outra.

Isso acontece porque a escrita é um processo de descoberta, investigação, pesquisa, aprendizado. A gente acha que escrever para transmitir o que a gente já sabe, porém o mais comum é a gente descobrir o que a gente sabe enquanto escreve. Por isso existe o TCC, para você aprender mais, não para mostrar o que já sabe.

Essa é minha parte preferida em escrever. O prazer de pensar uma coisa nova enquanto estou escrevendo, porque estou escrevendo. Isso acontece porque o pensamento na cabeça da gente é uma bagunça, vai e volta, diz e desdiz, descobre e esquece, é rápido, arisco, confuso. Falar, conversar com alguém, também é assim, vai e volta, fala uma coisa, depois fala outra, esquece o que falou. A escrita é o contrário, ela é lenta, exige esforço, exige conexão, as coisas ficam paradas na tela ou no papel, não é mesma maluquice agitada do pensamento ou da conversa. Ela permite que você organize o pensamento.

Pronto, essas as coisas mais importantes que eu tinha para dizer: criar o hábito de escrever, usar a escrita livre para aquecer, montar um esquema do que você vai escrever e escrever rascunhos para guardar as ideias. Agora, alguns últimos comentários.

Por qual seção começar? Eu tendo a achar mais fácil já fazer logo a introdução, pois ela é mais simples. No entanto, como as ideias principais estão nas seções 2 e 3, algumas vezes pode ser mais fácil já escrever alguma coisa delas. Acho melhor você experimentar e ver o que funciona melhor para você.

Quando começar? Um pouco sempre. Não demore a escrever, não espere ler tudo que você pesquisou sobre o assunto para só então escrever, não espere ter muita confiança ou clareza. Quando entender alguma coisa interessante, escreva. Quando já tiver alguma organização mínima sobre o assunto na sua cabeça, escreva. No mínimo foi treino. Se achar explicações melhores, é só substituir. Assim, você já terá um texto com o qual trabalhar e não sofrerá com a ansiedade de não conseguir. Repita comigo, um trabalho ruim é muito melhor do que nenhum trabalho. Não deixe o ótimo ser inimigo do bom.

Quando parar? Se prepare para uma resposta surpreendente. Você deve em alguma hora em que estiver muito empolgado, no alto da motivação. Isso serve para criar uma lembrança boa da escrita, associar escrever com emoções positivas, com empolgação, não com cansaço. Pare quando você ainda tem ideias, sabe o que escrever, antes de ficar cansado e sem o que dizer. Assim, o prazer continua mais tempo, dura até o dia seguinte. Quando pensar no tempo que ficou escrevendo, você vai ter uma lembrança boa e quando pensar que vai ter que escrever mais amanhã, você vai pensar nisso com prazer. Esse é um segredo muito importante para ter uma escrita prazerosa e fluente. Inclusive, pare no meio de frases e parágrafos. Assim, quando você voltar é mais fácil pegar embalo, porque já vai ter o que dizer. Então, pare quando ainda tiver ideias.

Aprenda a observar seus pensamentos e sentimentos enquanto escreve e estuda e questioná-los. Se está desanimado ou com raiva, tente descobrir o motivo. Se ficou animado e feliz, também.

Uma coisa que traz muitos sentimentos bons é a sensação de avanço. Você sentir que as coisas estão andando. Por isso, eu adoro fazer capa, resumo, colocar o número das página, ajustar a formatação, fazer as referências. Essas coisas fazem com que o texto já pareça pronto e bem feito.

Outro ponto essencial para alimentar emoções boas é criar metas fáceis, realistas, isso gera satisfação, orgulho. Dois parágrafos por dia, talvez uma página, o que você achar confortável. O importante é manter a regularidade: escrever de 20 a 60 minutos, um pouco quase todo dia, ao invés de escrever muito mas de maneira corrida, massante, cansativa. Tente estabelecer um horário para escrever, isso ajuda a virar hábito. Se fizer mais, ótimo. Muitas vezes a gente começa sem vontade, mas aí entra no fluxo e nem quer parar. Não use metas que exijam muito esforço, porque vão trazer sentimentos negativos (se xingar, ficar decepcionado, preocupado). Metas fáceis geram sensação de avanço, a felicidade gostosa de ver que você conseguiu fazer mais um pouco, que as coisas estão andando bem.

Melhore o texto em mais de uma revisão, em momentos diferentes. Revisar apenas uma vez não é suficiente. Escreva de manhã e releia à tarde. Ou escreva hoje e revise amanhã. Mesmo no caso de escritores experientes, a primeira versão quase nunca é a melhor que ele é capaz de fazer. E, na maior parte das vezes, mesmo no caso deles, a última versão também não é perfeita. Ora, é por isso que as editoras exigem que o texto passe por revisores e por editores.

Isso leva a outra dica. Mostre seu texto para outras pessoas. Para os colegas, para sua mãe, para um tio ou um amigo. Não precisa ser o texto inteiro, apenas a parte que te gera mais dúvidas. Não tenha vergonha de errar. Todo mundo erra, mas alguns fingem que não. Estes sofrem muito mais.

Uma dica muito legal para escrever um pouco quase todo dia é escrever um diário, que é o lugar natural da escrita livre. Há muitos estudos mostrando que escrever um diário traz vários benefícios (uma reportagem, outra reportagem): diminui o risco de depressão e ansiedade, acalma, ajuda a dormir melhor, ajuda a reconhecer as coisas boas na sua vida, a ter clareza sobre seus problemas, a fixar a aprendizagem, desenvolve a capacidade de se comunicar, limpa a cabeça, gasta de forma construtiva a energia de querer ficar analisando as coisas, força a ser linear, enfraquece pensamento negativos repetitivos porque os torna tediosos etc. Como se tudo isso não bastasse, escrever um diário é a melhor maneira de desenvolver sua capacidade de escrever, pois você estará escrevendo sem pressão, sem ser avaliado e sobre um assunto sobre o qual você tem muito a falar, sua vida.

Resumindo, não veja a tarefa de escrever o artigo dessa disciplina como uma chatice irrelevante. Afinal de contas, você pode escolher qualquer tema. Não veja como uma obrigação, mas como um prazer. Veja como uma chance de desenvolver uma habilidade muito importante para sua vida profissional e pessoal.

Afinal, quem não quer saber expressar melhor seus sentimentos em uma discussão ou escrever lindas mensagens de amor?


Referências


Você deve ter notado que este texto não segue nem as normas da ABNT nem mesmo o estilo de escrita mais sério que é usado no trabalhos científicos. Eu quis fazer assim para o texto ficar mais leve. No entanto, não posso deixar de mencionar que aprendi várias das ideias que estão aqui nas aulas de Robson Cruz que estão no Youtube. Ele tem um curso inteiro sobre como vencer o bloqueio da escrita acadêmica. Todos os vídeos são interessantes, mas os vídeos 5 e 6 foram os mais importantes para mim.