Tipos de pesquisa

Tipos de pesquisa científica

Como ilustrado na figura abaixo, há seis tipos básicos de pesquisa:

  • pesquisas de revisão narrativas;

  • pesquisas de revisão sistemáticas;

  • pesquisas teóricas;

  • pesquisas empíricas qualitativas;

  • pesquisas empíricas quantitativas; e

  • pesquisas empíricas com estudos de caso.

Essas não são categorias estanques. É comum que um trabalho combine elementos de diferentes tipos.

A primeira distinção é aquela entre trabalhos de revisão e trabalhos originais. A revisão de literatura consiste em reunir as fontes de informação (artigos, reportagens, leis, sites etc.) sobre determinado assunto, analisando as diferenças e semelhanças entre elas, tentando resumir o que já se sabe sobre aquela área. Na verdade, todos os artigos devem incluir uma revisão de literatura em algum ponto do texto (também chamada de "revisão bibliográfica" ou "estudos anteriores"). No entanto, algumas pesquisas se concentram em fazer uma revisão abrangente e detalhada de determinado assunto. Essa é uma tarefa muito trabalhosa e muito valorizada porque exige compreender uma grande quantidade de pesquisas.

Há dois tipos de revisão de literatura. A revisão narrativa é o tipo que você fará em seu artigo para essa disciplina. Ela consiste em uma pesquisa exploratória, em que a seleção das fontes de informação que serão resumidas é feita a partir do que o pesquisador considera importante, sem a definição de critérios explícitos sobre quais fontes incluir e sem a preocupação de incluir todos os trabalhos relevantes acerca do assunto (ROTHER, 2007)..

O segundo tipo de revisão de literatura é a revisão sistemática. Como o próprio nome indica, ela exige a definição clara de quais termos de busca e quais critérios serão utilizados na seleção das fontes de informação, com o intuito de reunir todas as informações relevantes sobre o tema (ROTHER, 2007).

Como dito acima, aqui na disciplina faremos um artigo de revisão narrativa, exploratória. As revisões sistemáticas são muito utilizadas na área da saúde, mas vêm ganhando cada vez mais espaço nas ciências sociais.

Outro termo comum nesse contexto, é "referencial teórico" (ou "fundamentação teórica"). Esse costuma ser o título da segunda seção de um artigo empírico. Algumas pessoas o tratam como sinônimo de revisão de literatura, porém, há quem reserve esse nome apenas para a situação em que será apresentada uma teoria específica que será usada na parte empírica do trabalho, e não simplesmente ao conjunto de estudos anteriores sobre o assunto.

A próxima distinção é aquela entre os diferentes tipos de pesquisas originais: os trabalhos teóricos e os trabalhos empíricos. Os trabalhos teóricos se concentram em analisar conceitos, ideias, definições etc., enquanto os trabalhos empíricos são aqueles que se baseiam em informações sobre o que já aconteceu, os dados ("empírico" se refere ao que foi vivido). Por exemplo, uma análise sobre o que define um país desenvolvido é um estudo teórico, mas uma análise da quantidade de demissões em Minas Gerais no último ano é um estudo empírico.

Você provavelmente já ouviu as pessoas fazerem a distinção entre teoria e prática (ou empiria, o que é empírico). Por exemplo, "na teoria, o Brasil deveria ganhar a partida, mas é preciso ver o que vai acontecer na hora do jogo" ou "depois de assistir cinco vídeos no YouTube, eu já sei fazer bolo de cenoura na teoria, agora é preciso ver na prática se eu realmente sei fazer".

Nem sempre há uma separação rígida entre esses tipos de pesquisa. É comum os trabalhos empíricos fazerem algum tipo de análise conceitual, assim como é também comum que os trabalhos teóricos façam algum tipo de análise de dados. Um artigo pode começar detalhando as diferenças de rentabilidade entre diferentes tamanhos de empresa e terminar discutindo como definir se uma empresa é familiar ou não.

Matemática e Direito são exemplos de ciências predominantemente teóricas, ao passo que Medicina e Agronomia são ciências muito empíricas. Ciências Contábeis, Ciências Atuariais, Economia e Administração Pública possuem tanto aspectos teóricos quanto empíricos.

A distinção entre pesquisas teóricas e empíricas tende a se alinhar com a diferença entre dois tipos de raciocínio, dedutivo e indutivo. Os estudos teóricos normalmente são dedutivos, isto é, partem de uma regra geral para explicar casos específicos, enquanto os estudos empíricos são indutivos, quer dizer, tentam chegar a uma regra geral a partir do estudo de casos específicos.

Como dito acima, tanto os trabalhos matemáticos quanto os trabalhos jurídicos são exemplos de trabalhos teóricos. Partindo da definição de que o triângulo é a figura geométrica de três lados, os matemáticos tiram certas conclusões sem precisar medir nenhum triângulo real (empírico). Da mesma maneira, os juízes e advogados discutem qual é a melhor interpretação de certo artigo da Constituição Federal para fazer com que ele seja consistente com o restante dela, pressupondo que tudo o que está na Constituição é verdadeiro. Também é dessa maneira que boa parte das teorias econômicas são discutidas: partindo-se de certos pressupostos sobre os agentes econômicos e o funcionamento de determinado mercado eles tentam demostrar que alguns acontecimentos são mais prováveis do que outros ou que certas ações do governo são mais adequadas do que outras. A Contabilidade também utiliza muito esse tipo de raciocínio. Por exemplo, dado o ativo e passivo é possível calcular o patrimônio líquido.

O movimento no raciocínio indutivo, e nos trabalhos empíricos, é inverso: cientistas fazem experimentos com ratos em laboratório para tentar prever o que vai acontecer com outros seres vivos, incluindo humanos. Eles estão estudando um caso específico, porém com o objetivo de fazer uma generalização, a identificação do que é válido para todos os casos de um mesmo tipo de acontecimento. É o caso do engenheiro que testa protótipos de aviões em túneis de vento, de agrônomos que estudam partes de uma lavoura e de quem faz pesquisas de opinião para presidente com apenas 2.000 pessoas tentando prever como 140 milhões de eleitores votarão.

Portanto, enquanto os estudos empíricos buscam identificar regularidades nos dados sobre o que já aconteceu (p. ex. quanto tempo as empresas sobrevivem em média em Varginha), os trabalhos teóricos tentam encontrar melhores definições de certos conceitos ou as classificações mais adequadas para determinados fenômenos (por exemplo, o que é uma empresa familiar ou quantos setores econômicos existem).

A última divisão importante entre os tipos de pesquisa é entre três tipos de pesquisas empíricas. As pesquisas quantitativas e qualitativas normalmente possuem objetivos, técnicas de coleta de dados e técnicas de análise de dados muito diferentes. O terceiro tipo de pesquisa empírica, os estudos de caso, combinam aspectos quantitativos e qualitativos.

Em relação aos objetivos, os estudos quantitativos reduzem os acontecimentos a números e usam a estatística para analisar esses dados. Eles fazem isso para ganhar em poder de generalização. Por exemplo, quantas pessoas se endividaram por irresponsabilidade financeira? Por outro lado, os estudos qualitativos buscam captar como determinadas pessoas percebem o mundo, como é o mundo visto do ponto de vista dessas pessoas. Isso normalmente é feito analisando como as pessoas falam sobre as suas experiências. Eles fazem isso para ganhar em profundidade: a descrição detalhada de como as pessoas organizam em seu íntimo o que aconteceu com elas.

A segunda dimensão em pesquisas quanti e qualitativas se distinguem é o tipo de técnica de coleta de dados. Os estudos quantitativos em ciências sociais normalmente se baseiam na aplicação de questionários com respostas fechadas, individuais e sem interferência do pesquisador. Por exemplo, pedindo ao entrevistado para avaliar a satisfação com sua vida financeira em uma escala de 1 a 5 (de completamente insatisfatório a completamente satisfatório).

Já os estudos qualitativos normalmente usam questionários com respostas abertas (entrevistas semi-estruturadas) ou mesmo entrevistas sem perguntas pré-definidas ("entrevistas em profundidade"), sem necessariamente usar as mesmas perguntas para todos os entrevistados. Para saber mais sobre pesquisas qualitativas e os diferentes tipos de entrevista, veja o artigo "Da fala do outro ao texto negociado: discussões sobre a entrevista na pesquisa qualitativa" (FRASER; GONDIM, 2004).

Dois tipos de técnicas de coleta de dados específicas das pesquisas qualitativas são os grupos focais e a etnografia. Os grupos focais são situações em que várias pessoas são entrevistadas ao mesmo tempo e são estimuladas pelo entrevistador. A etnografia é o tipo de pesquisa em que o pesquisador estuda sua própria experiência. Por exemplo, quando vão viver por um tempo em uma clínica de dependentes químicos.

A terceira dimensão em que pesquisas quanti e qualitativas se diferenciam é em relação é técnica de análise dos dados. As pesquisas quantitativas fazem uso intensivo da estatística: análise estatística descritiva, análise de regressão, análise de agrupamento, dentre outras. Por sua vez, embora muitas vezes incluam também estatísticas descritivas, nas pesquisas qualitativas predominam técnicas de análise de texto como análise de conteúdo e análise do discurso, pois lidam com os textos das entrevistas, buscando captar significados profundos no que os entrevistados disseram.

Por fim, os estudos de caso podem incluir tanto aspectos teóricos quanto empíricos, tanto metodologias qualitativas quanto quantitativas. Essas são pesquisas que se dedicam a descrever e analisar um objeto específico (uma empresa, um órgão do governo etc.), realizando análises documentais (descrição e resumo de documentos, tais como testamentos, certificados, livros contábeis etc.) e também usando dados quantitativos e diferentes tipos de entrevistas.

Como foi dito no início desta seção, essas distinções (pesquisas de revisão e originais, teóricas e empíricas, quantitativas e qualitativas) não são rígidas, é comum que os artigos contenham aspectos de categorias diferentes.


Referências

FRASER, M.; GONDIM, S. Da fala do outro ao texto negociado: discussões sobre a entrevista na pesquisa qualitativa. Paidéia, v. 14, n. 28, 2004.

ROTHER, E.. Revisão sistemática e revisão narrativa. Acta Paulista de Enfermagem, v. 20, n. 2, 2007.